O que é a Campanha?
A Campanha dos 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo é uma frente de luta apartidária, sem fins lucrativos e autogestionada, com a missão de pautar a luta antirracista em diferentes escalas e contextos como uma ação diária e contínua.
A proposta foi criada pela ativista Luciene Lacerda, que mobilizou um conjunto de ativistas pela primeira vez em 2016 para fortalecer o 21 de março, Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Esta data foi decretada pela ONU em memória do Massacre de Sharpeville, em Joanesburgo, quando em 1960 uma manifestação pacífica contra o regime do apartheid e a Lei do Passe foi violentamente reprimida pelo governo sul-africano. A ação resultou em 69 mortos e 186 feridos. Seis anos depois, em 1966, a Organização das Nações Unidas instituiu o dia 21 de março como data internacional de combate à discriminação racial. Embora o 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, seja amplamente reconhecido, a luta negra e antirracista se expressa em múltiplas datas e narrativas. Em um país onde 56% da população é negra, é fundamental lembrar essas diversas lutas, que ecoam tanto as resistências africanas contra a opressão quanto os combates travados na Diáspora Africana.
Durante os 21 dias de ativismo, promovemos interações com ativistas de várias cidades e países para que apresentem suas formas de atuação e suas principais lutas regionais. O objetivo é fomentar debates e ações da pauta antirracista, realizando trocas que fortaleçam a internacionalização das resistências.
A primeira edição da Campanha foi realizada ao longo de 21 dias no mês de março de 2017. Desde então, ela ocorre anualmente em março, com seu formato definido em plenárias públicas nos meses anteriores. Já em sua primeira edição, a Campanha incorporou o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, além do dia 21, como datas para ações coletivas. Ao longo dos anos, outras datas de março foram integradas à agenda: o dia 14, que marca o assassinato de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes em 2018, quando saíam de um evento da Campanha, e que também é o aniversário dos ícones Carolina Maria de Jesus e Abdias Nascimento; e o dia 16, data em que Cláudia Silva foi assassinada e arrastada por uma viatura policial. Nesta última, passamos a homenagear também todas as vítimas do racismo de Estado. A partir de 2023, o dia 21 de março passou a ser também o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé.
Em 2026, a Campanha dos 21 Dias de Ativismo contra o Racismo atinge a marca histórica de uma década de resistência, memória e ação contínua. Estes dez anos simbolizam a consolidação de um movimento orgânico e autônomo que transformou março em um mês de referência nacional e internacional para a luta antirracista. Desde sua gênese até se firmar como uma grande articulação da sociedade civil, a Campanha construiu uma trajetória pautada pelo legado de lutas ancestrais e pela urgência do presente. A cada ano, suas plenárias públicas reafirmam o caráter coletivo e horizontal desta frente, que amplificou vozes, conectou territórios e internacionalizou as resistências da diáspora. Celebrar uma década é honrar a memória de quem pavimentou este caminho e reenergizar o compromisso com as futuras gerações. É reconhecer que, em um país onde o racismo estrutural, ainda que reconhecido formalmente pelo Supremo Tribunal Federal, segue sendo negado em sua essência pela ausência de políticas de reparação, manter viva e crescente uma iniciativa autogerida por dez anos é, em si, um poderoso ato de rebeldia e esperança. A Campanha se mostra uma agenda necessária, provando que a luta pela eliminação da discriminação racial é diária, coletiva e não cessa.
No país onde, entre os séculos XVI e XIX, o racismo foi o instrumento oficial para escravizar pessoas pela cor da pele, as instituições escravistas foram reconfiguradas e permanecem até hoje, conduzindo uma política de morte contra corpos negros. O Brasil foi o país que mais recebeu pessoas escravizadas em toda a diáspora, o que gerou uma sociedade extremamente desigual. O Estado brasileiro promoveu uma abolição sem políticas de reparação e difundiu a ideologia da democracia racial, silenciando um histórico de brutalidade e violência baseada na ideia de raça. O racismo ataca, constrange, fere, mata pessoas e destrói territórios negros.
Nossa arte e cultura negra permanecem inspirando gerações e também estão presentes em nossa Campanha.
A Campanha dos 21 Dias de Ativismo contra o Racismo é uma iniciativa que entende ser impossível haver democracia em uma sociedade racista. A decisão de não se vincular a governos ou secretarias tem como objetivo pressionar para que essas instituições implementem as leis antirracistas já aprovadas, e não se limitem a realizar atividades pontuais sem os recursos orçamentários necessários para sua efetivação. Por isso, não aceitamos incluir em nossa agenda atividades que carreguem logos governamentais.
A Campanha visa inspirar ações da sociedade civil, conectando entidades, organizações e instituições do movimento negro e da luta antirracista para criar iniciativas que eliminem o racismo de nossa sociedade. Como disse Angela Davis, feminista e filósofa estadunidense: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.
Coordenação
Luciene Lacerda
Psicóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
É criadora e integrante da Coordenação dos 21 dias de Ativismo contra o racismo e integrante da Coalizão Negra por Direitos, e também do Fórum Estadual de Mulheres Negras. Integra a coordenação do Instituto Búzios na coordenação de ações feministas. Participa do NEABI e da Câmara de Políticas Raciais da UFRJ; e também a ANPSINEP (Articulação Nacional de Psicólogos Negres) Recebeu as medalhas Chiquinha Gonzaga (2015) e Pedro Ernesto (2022) da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Luiz Fernandes de Oliveira
Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica – PUC-RJ; Professor de Ensino de Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), atuando na Licenciatura de Educação do Campo.
Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares – PPGEDUC da UFRRJ.
Raquel Matoso
Professora de história, licenciatura e bacharelado UERJ.
Uma jornada em pré vestibular comunitário em educação antirracista, colaborando atualmente com Pré Vestibular RSI lecionando história, no Alto da Boa Vista e na equipe pedágio do Só Cria, no centro do Rio. Trabalha na Pró-Reitoria de Assistência Estudantil da Uerj PR4, com ações afirmativas. É uma das gestoras do Movimento Negro Evangélico no Rio de Janeiro e uma das representantes nacionais no MNEBR. Integrante do Nós na Criação e do grupo de pesquisas Africas Uerj/UFRJ.
Denilson Araújo de Oliveira
Professor do Departamento de Geografia Humana – UERJ. Coordenador do NEGRA – Núcleo de Estudo e Pesquisa em Geografia Regional da África e da Diáspora – Integrante do ProAfro- UERJ e do Instituto Búzios
Ana Paula Procópio
Professora adjunta da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Doutora em Serviço Social (UFRJ, 2017). Mestre em Serviço Social (UERJ, 2009). Possui graduação em Psicologia (UGF, 1996) e em Serviço Social (UERJ, 2007). Coordenadora do Programa de Estudos e Debates dos Povos Africanos e Afro-americanos -PROAFRO UERJ. Pesquisadora integrante do Centro de Estudos Octavio Ianni (FSS/UERJ). Coordenadora da Residência Multiprofissional em Saúde Mental da Uerj. Tem experiência na área de Serviço Social, com ênfase em Serviço Social e processos de trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: fundamentos do serviço social, trabalho, relações étnico-raciais, gênero, educação, saúde e saúde mental.
Patricia Cardoso de Jesus

É mestre em Saúde Pública e Promoção de Saúde pela Brunel University London (Reino Unido), sendo bolsista da British Council Women in STEM Scholarship, com intercâmbio realizado em Gana (África Ocidental). Formada em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e técnica em Gerência em Saúde pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/FIOCRUZ). Já atuou como pesquisadora no Observatório de Violência Racial (OVIR) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) no projeto “Saúde da Mulher Negra: Violência Racial, Resistência e Produção de Saberes” (2023-2024). Trabalhou também na Comissão de Heteroidentificação Racial da UFRJ (2020-2021). Integrou o Grupo de Trabalho de Saúde Mental e Racismo do Comitê Técnico de Saúde do município do Rio de Janeiro (2019-2022). Atua como coordenadora de mobilização de jovens no programa Decola Cria (Global Opportunity Youth Network). Dedica-se a pesquisar o tema da saúde das mulheres negras no Sul Global e seus agenciamentos políticos para garantia de saúde.
Luan Thambo Lacerda de Oliveira

Luan Thambo Lacerda de Oliveira é economista formado pela UFRJ, com atuação voltada à relação entre justiça racial, clima e desenvolvimento. Sua pesquisa de graduação teve como foco os territórios quilombolas da Amazônia e a importância da preservação ambiental para a proteção dos direitos e modos de vida das populações negras.
Atua profissionalmente na área de sustentabilidade e análise de dados, com experiência em projetos que envolvem indicadores socioambientais e organização de informações para apoiar decisões. Teve participação na COP29 e, na COP30, atuou representando a Campanha 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo, fortalecendo a presença da pauta antirracista nos espaços internacionais de clima.
Denise Nicacio Pereira

Denise Nicacio Pereira. Participa da campanha dos 21 dias de ativismo contra o racismo desde 2018.
Assistente Social formada pela UERJ. Pós graduada em Gestão de Pessoas (ESPM). Certificada por Harvard em Estudos Afro latino Americanos e Pós graduanda em Direitos Humanos (PUC/RS). Atuou nas áreas de Saúde Pública, Segurança Pública e Assistência Social. Possui 21 anos de experiência na área de Recursos Humanos, onde trabalha atualmente.
Participou de grupos de trabalho que elaborou documentos orientativos sobre o combate ao racismo como o Termo de Orientação do Exercício Profissional Antirracista do Conselho Regional de Serviço Social do RJ/2023 e o Plano de Equidade Racial da Petrobras/2024. Alem da militância e do trabalho gosta de viagens, livros, sol, séries, música, família e amigos.
In memoriam




Aderaldo Pereira dos Santos
No seu trabalho como Aderaldo. Adotou então, Aderaldo Gil. Ele foi trazido para o Rio com apenas dois anos de idade, sendo o lugar ao qual foi criado, desenvolvendo suas paixões pelo cinema, pelo samba, pela militância negra e sindical, pelos animais e pelo mar. Começou a trabalhar cedo no banco, mas depois de desistir de fazer cinema, por considerar a dificuldade de se manter, fez faculdade de Direito, desistiu; e resolveu fazer História, na UFF.
Pós doutorado em História pela UFF (2022) com o militante negro Vicente Ferreira como tema; Doutor em História da Educação pela UFRJ (2019) tendo o Professor Hemetério José dos Santos, primeiro professor negro do Instituto de Educação e do Colégio Militar, como tema – “Arma da Educação: Cultura Política, Cidadania e Antirracismo nas experiências do Professor Hemetério José dos Santos”; Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2007); Especialização em História da África e do Negro no Brasil pela Universidade Cândido Mendes (2008); Especialização em História do Século XX pela Universidade Cândido Mendes (2001); Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (1992); Professor de História do DEGASE e da FAETEC; Coordenador de pesquisa do Centro de Memória da FAETEC (CEMEF); Pesquisador do Centro de Documentação e Memória do DEGASE (CEDOM).
Suas lutas eram também temas de seu trabalho e aguerrida militância: História da educação de negras e negros; protagonismo de negras e negros na História; Movimento Negro e a luta antirracista; Educação em ambientes socioeducativos; Ensino da História da África e dos afrodescendentes na diáspora; Educação antirracista.
Aderaldo Gil era um homem calmo e tranquilo, porém muito firme nas suas convicções e palavras. Sempre encarou a vida de forma leve e serena, desprendido de qualquer obsessão por objetos materiais. Seu amor pelo samba se expandia nas suas composições, seu amor pela vida era nos ensinado em cada conselho, cada palavra de conforto e cada incentivo para encarar as adversidades de forma mais leve, mas nunca deixando de lado as lutas para uma sociedade antirracista.
Começou a militar após ver uma banquinha na rua convocando para a Marcha contra a farsa da abolição. Foi um dos mais aguerridos organizadores. É possível ouvir sua voz no vídeo sobre a Marcha de 1988. Integrou o IPCN, membro da coordenação da Campanha dos 21 dias de ativismo contra o racismo. Foi militante no sindicato dos bancários, da Associação de Professores do DEGASE e também da FAETEC.
Em 25 de março deste foi internado com sepse respiratória em um hospital de Maricá, onde faleceu após 3 meses de muita luta – como sempre, aos 61 anos.
Deixando viúva, Luciene Lacerda, e seus dois filhos, Glauber Machel e Ana Luiza, e seu enteado, Luan Thambo.
Esse gentil, amoroso, afetuoso, companheiro, e um excelente pai e padrasto deixou saudades e amigos por onde passou. Um historiador que fez história e recolocou na história importantes militantes da luta antirracista. Esta luta que nós ainda temos tanto a fazer.
Sandro Lopes
Há dez anos, em 2016, nascia uma campanha de ativismo contra o racismo durante o mês de março, idealizada por Luciene Lacerda. Foi nesse contexto que o professor Sandro Lopes tomou conhecimento das ações em planejamento e se uniu aos diversos ativistas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, participantes das primeiras reuniões, tornando-se uma grande e fundamental referência desta Campanha. Sua trajetória era um contínuo desdobrar de talentos: animador, designer formado pela UFRJ, pesquisador e professor. Mas todas essas facetas convergiam para uma luta maior e essencial: sua incansável defesa da presença e da voz negra na cultura brasileira.
Sandro era um multiplicador de forças. Sua atuação se entrelaça com a de outros nomes fundamentais, formando uma rede que expande a representatividade. Nascido no subúrbio carioca, direcionou sua excelência acadêmica para um propósito afirmativo. Seu doutorado na PUC-Rio focou no Design Afirmativo, visto como ferramenta de reparação e luta antirracista, defendendo a mídia democrática e plural, especialmente para crianças.
Sua obra é o testemunho vivo desse compromisso. Vencedor do Prêmio Funarte Arte Negra com o projeto “Nana e Nilo”, e com passagens por produções como “Se essa Rua Fosse Minha” e “Meu Amigãozão”, Sandro trabalhou para incluir personagens negros e tradições africanas no imaginário infantil. Até pouco antes de seu falecimento, seguia difundindo conhecimento, como na série “O que é animação negra?”.
Sandro partiu precocemente, em decorrência da COVID-19, mas seu legado de arte, educação e afeto permanece atuante. Após uma década do início da campanha à qual se dedicou, sua presença segue viva em cada criança representada, em cada profissional inspirado e no caminho que ajudou a abrir. Sua luta continua a ecoar, lembrando-nos que a arte comprometida com a diversidade é verdadeiramente eterna.
